domingo, 6 de outubro de 2013

Caranguejo-cinzento da costa: uma raridade nos Açores?


Ocorrênia:
Durante a última ação "Explora a Biodiversidade Marinha dos Açores - 2013", promovida pelo OMA - Observatório do Mar dos Açores na manhã do dia 27 de agosto de 2013, destinada ao público juvenil e integrada nas Festas do Varadouro - 2013 (Faial), foi encontrado um caranguejo-cinzento da costa adulto, correspondente ao nome científico de Plagusia depressa (Foto 1), pelo biólogo João Nuno Gonçalves na zona de mar das piscinas do Varadouro a cerca de 2-3 m de profundidade. Pela observação do abdómen constatou-se que era uma fêmea não ovada (Foto 2). Depois de fotografado o caranguejo foi libertado na mesma zona onde foi apanhado.
Foto 1- Plagusia depressa fotografada no dia 27/08/2013 no tanque de manutenção de animais marinhos para exibição ao público juvenil (em conjunto com algas, ouriços-do-mar de espinhos-curtos e holotúrias).

Foto 2 - Pormenor da zona ventral do caranguejo-cinzento da costa, permitindo verificar que era uma fêmea (abdómen muito arredondado). 
Curiosidades:
Apesar desta espécie de caranguejo já ter sido registada anteriormente nos Açores, curiosamente apenas no Faial, não é de ocorrência muito comum.
Os caranguejos-cinzentos da costa vivem na zona intertidal e subtidal superior em zonas rochosas, praticamente no mesmo habitat que o caranguejo-fidalgo (Grapsus adscencionis), que é bastante mais comum nos Açores, e que é apanhado para ser utilizado como petisco nas festas regionais.
Muito provavelmente os Açores estão no limite norte da distribuição desta espécie no Atlântico. Nas ilhas das Canárias e da Madeira os caranguejos cinzentos são bastante mais comuns e também capturados para alimentação humana. Esta espécie ocorre ainda em Cabo Verde, costa oeste africana (Marrocos a Angola) ilhas do Atlântico sul (Santa Helena e Ascensão).
Parece tratar-se de uma espécie omnívora, alimentando-se de algas e de restos animais.

Para saber mais:
- EOL - Encyclopedia of Life
- WORMS
- Espino et al., 2007. Guia Visual de Especies Marinas de Canarias. 2nd Ed., Oceanografica, Publ.

domingo, 1 de setembro de 2013

Cagarros nas estradas: também param no verão - risco de atropelamento!

A ocorrência de cagarros parados nas estradas é habitual todos ao anos nos Açores, à noite, de outubro a novembro, quando os novos cagarros juvenis (Calonectris diomedea borealis) saem dos seus ninhos/tocas. Nessa altura do ano, a campanha "SOS cagarro" tem feito um trabalho notável de sensibilização ambiental.

Cagarro adulto parado em estrada sem iluminação (à entrada de St. Amaro/Pico -30/08/2013: 23:30h).

Mais rara é a ocorrência de cagarros adultos parados nas estradas fora da altura do ano indicada, apesar da sua presença ser facilmente audível, à noite, perto das colónias de nidificação. Contudo, este ano observei por várias vezes na ilha do Pico (zona da Prainha/St. Amaro) cagarros adultos parados em troços de estrada sem iluminação. Como têm tendência em ficar imóveis, alguns acabam lamentavelmente por ser atropelados, como foi o caso do registado na foto seguinte.
Cagarro atropelado encontrado em 05/08/2013 na berma da estrada regional junto ao parque de merendas da Prainha do Pico (ave com 793 g de peso, comprimento de asa: 38 cm; comprimento do bico; 6,4 cm).

Em qualquer dos casos trata-se de cagarros adultos, prospetores, que estão a iniciar a fase reprodutiva, andando à procura de parceiros e/ou locais de nidificação. Não se conhece a razão deste comportamento, mas poderá conjeturar-se que o calor do alcatrão da estrada  ou a ausência de obstáculos contribuam para esta atração.

Para saber mais:
Campanha SOS Cagarro

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Pêssegos no mar? - As lesmas-pessêgo!


Ocorrência: 
Na passado sábado (27/07/2013), o Sr. Daniel Rafael, voltou a encontrar outro animal curioso na piscina semi-natural do Varadouro (Faial), e trouxe-o para identificação. Apesar de ter sido mantido refrigerado em água do mar, acabou por não sobreviver e quando foi identificado (30/07/2013) já não estava em perfeitas condições de conservação.

Identificação:
Foto dorsal da lesma-pêssego encontrada na piscina do Varadouro.
No topo da foto é visível o par de rinóforos de forma
tubular (a mancha na zona central à esquerda é um reflexo).
Neste caso, trata-se de um verdadeiro molusco nudibrânquio (lesma-do-mar), que se pode designar por lesma-pêssego, dada a semelhança que apresenta com os pêssegos em calda, em termos de forma geral globosa e pela coloração laranja vivo. É também conhecida como lesma-de-brânquias-laterais. O exemplar tinha ca. de 7 cm de comprimento máximo e 4,5 cm de largura máxima (medidas tiradas com o animal completamente distendido, mas quando estão vivos têm uma forma mais globosa). A concha típica dos gastrópodes, que é inexistente na maioria dos nudibrânquios, é, neste caso, interna.
  
Vista ventral da lesma-pêssego, vendo-se o pé,
o manto exterior, a glândula digestiva (zona escura),
e concha interna (à esquerda da anterior).
Em termos de nome científico, este indivíduo poderá corresponder às espécies Berthellina edwardsi ou Berthella aurantiaca, já que são muito idênticas  em termos de coloração e morfologia, diferindo em termos de anatomia interna (entre outras, nos dentes laterais da rádula, mais numerosos na primeira do que na segunda). Ambas as espécies estão registadas para os Açores e para a costa continental portuguesa e europeia (ex.: Cervera et al., 2004; Rodrigues et al., 2008).
O exemplar foi conservado em formol (10%) para a coleção interna do DOP.

Informações complementares:
As lesmas do mar são geralmente animais carnívoros que se alimentam de esponjas, hidrários, ascídeas e outros pequenos animais bentónicos marinhos. Tal como os restantes nudibrânquios são hermafroditas e fazem posturas muito características (fitas concêntricas aderentes ao fundo). Geralmente têm as brânquias expostas (daí o nome nudibrânquio = brânquias nuas), mas neste caso das lesmas-pessêgo, as brânquias são laterais e estão cobertas pelo manto não sendo visíveis externamente. A superfície do manto destes organismos produz muco com substâncias tóxicas que constituem defesas contra predadores. As cores vivas que exibem funcionam como aviso. São mais ativos à noite, quando saem para se alimentarem. Durante o dia costumam estar abrigados debaixo de pedras e/ou fendas.
  
Referências:
Cervera, J.L., G. Calado, C. Gavaia, M.A. Malaquias, J. Templado, M. Ballesteros, J.C. Garcia-Gómez & C, Megina, 2004. An annotated and updated checklist of the opistobranchs (Mollusca: Gastropoda) from Spain and Portugal (including islands and archipelagos). Boletín Instituto Español Oceanografía, 20 (1-4): 1-122.
- Rodrigues, N.V., P. Maranhão, P. Oliveira & J. Alberto, 2008. Guia de Espécies Submarinas de Portugal: Berlengas. Instituto Politécnico de Leiria. 231 pp.

Para saber mais:
 - Nudibrânquios-Opitobrânquios
- Wikipedia
- Naturdata
- Espécies Mar Açores
- Blog opistobrânquios

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Planária-carpete: uma falsa lesma do mar!

Evento:

No passado domingo (21/07/2013), o Sr Daniel Rafael viu no fundo da piscina grande (semi-natural) do Varadouro (Faial), este pequeno e curioso animal a andar rapidamente sobre o fundo de areia escura na zona mais funda da piscina (~2,5 m profundidade). Na passada terça-feira (23/07/2013), voltou a encontrá-lo e trouxe-o em água salgada para o DOP no início da tarde do dia seguinte para obter mais informações sobre o animal.  

Vista ventral da planária-carpete visível
ao nadar de "barriga para o ar".
Tamanho relativo e vista dorsal da planária-carpete.

Planária-carpete de regresso à sua piscina natural




Identificação e observações:
Como o animal estava em boas condições tiraram-se algumas fotografias. O animal foi devolvido à piscina do Varadouro no final do mesmo dia. 
Trata-se um verme plano ("flat worm"), da Classe dos Turbelários ou planárias, um subgrupo do Filo Platelmintas, muito provavelmente um indivíduo, com ca. 3 cm de comprimento, da espécie Thysanozoon brochii, que poderemos designar em português por planária-carpete, à semelhança do inglês "Carpet flatworm", dado que as papilas dorsais do animal se assemelham à textura de cima das carpetes/alcatifas.
Apesar do seu pequeno tamanho, deslocam-se sobre o fundo rapidamente (cerca de 15 cm por minuto, correspondendo a ~5 unidades corporais por minuto) (dados registados durante 2 percursos feitos pelo animal na caixa onde foi fotografado, comprimento 16 cm feito em 70 seg e largura de 12 cm em 40 seg.). São também capazes de nadar através de ondulações rápidas das margens laterais do corpo, invertendo a posição que têm quando andam no fundo (dorso para cima), ficando com o ventre para cima (ver video). 

      
Curiosidades:
As planárias são geralmente animais carnívoros e/ou necrófagos de pequeno tamanho e de vida livre, que habitam ambientes húmidos terrestres, as águas doces, mas também há espécies marinhas, como é o caso desta. Têm a curiosidade de ter o sistema digestivo incompleto, tendo só boca e cavidade gástrica, não havendo ânus. Apesar do sistema nervoso ser pouco desenvolvido apresentam pelo menos um par de ocelos dorsais e frontais, que são órgãos sensíveis à luz ("olhos primitivos"), e muitas espécies formam com a margem anterior do corpo, um par de pseudo-tentáculos sensoriais, que se assemelham aos tentáculos sensoriais e rinóforos das lesmas-do-mar (moluscos nudibrânquios). Por esta razão, e também pelas cores vivas que muitas espécies apresentam, podem ser facilmente confundidos, embora as últimas sejam geralmente maiores, mais encorpadas e se desloquem mais lentamente.     

Ocorrências anteriores e distribuição geográfica:
Não há muita informação sobre a ocorrência de planárias marinhas nos Açores. A espécie agora observada, T. brochii, é referida para as poças subtidais dos Açores (poça de Santa Cruz das Flores?), por Morton et al. (1998). Outras espécies de planárias marinhas foram também fotografadas nos Açores (Planocera graffi e Prosthoceraeus giesbrechti) (ver Plathelminthes em Lista Espécies de www.intradop.info). 
T. brochii está referenciada para o território continental (Ferreira, 2011), e tem uma ampla distribuição geográfica: Atlântico Norte (costas europeias, Mar do Norte; costa do México), costa da África do Sul  da Nova Zelândia. 

Para saber mais:
- EoL
- ECSD
ITIS
Wikipedia
WORMS

Referências:
- Ferreira, V.M.P. (2011). Guia de Campo - Fauna e Flora Marinha de Portugal. Ed. PlanetaVivo, Lda. Leça da Palmeira, Portugal, 265 pp.   
- IntraDOP (Lista de Espécies Marinhas dos Açores: www.intradop.info).
- Morton, B., Britton J. C., A. F. Martins A. M.F. (1998). Ecologia Costeira dos Açores. Sociedade   Afonso Chaves, Ponta Delgada. 249 pp.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Tartaruga verde morta dá à costa em Porto Pim

Ontem pela manhã, recebi a noticia por mensagem "Ana temos uma tartaruga marinha morta no OMA". 


Assim que cheguei e ainda antes de ver o animal já o cheiro era nauseabundo. A pequena tartaruga verde (Chelonia mydas) tinha sido há pouco recolhida perto das rochas na Praia de Porto Pim (Horta) pelos serviços do Parque Natural do Faial, que fazem a limpeza à praia. 


O animal não estava marcado, ou seja não apresentava anilhas nas suas barbatanas, tinha 30,5 cm de comprimento curvilíneo e  26,5 cm de largura curvilínea e pesava cerca de 3 kg. 



Ao pegar nela para fazer um exame visual e tentar perceber o motivo da sua morte, reparei que tinha um buraco profundo entre a cloaca e a barbatana posterior direita de onde já lhe saíam algumas vísceras. Provavelmente foi mordida por algum peixe.


Na cabeça, as suas escamas pré-frontais também tinham sofrido sérios danos e já quase tinham desaparecido, possivelmente devido aos embates nas rochas. 




Recolheu-se um pedaço da sua barbatana para estudos genéticos e por fim, decidiu-se enterrá-la. Assim, mais tarde pode-se recuperar o seu esqueleto e principalmente os úmeros, que servem para determinar a idade e crescimento. 

Ana Besugo

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Tartarugas marinhas (Caretta caretta) arrojam na Praia de Porto Pim e recuperam no Aquário de Porto Pim


No dia 13 de Abril arrojaram na Praia de Porto Pim, 2 tartarugas marinhas, da espécie Caretta caretta, devido às más condições do mar. A que apresentava maiores dimensões, com cerca de 20 kg, mas de estado francamente débil, foi imediatamente transferida para o antigo DOP onde recebeu os devidos cuidados pela equipa (que cuida dos casos das tartarugas), Ana Besugo (estudante de mestrado no IMAR-DOP/UAç) e Marco Santos (DRAM). Foi necessário colocar a tartaruga num plano inclinado durante várias horas de forma a facilitar a excreção de água que possivelmente esta teria nos pulmões (Fig. 1). 

Fig.1 - tartaruga colocada num plano inclinado.

A outra tartaruga, muito mais pequena (com 116 gr), foi-lhe retirada todas as medidas necessárias para estudos futuros (Fig. 2). 

Fig. 2 - tartaruga a ser medida.

No final desse dia, ambas foram transferidas para os tanques do Aquário de Porto Pim para poderem recuperar o seu estado de saúde, até serem novamente libertadas ao mar.

No dia seguinte, e novamente devido às más condições do mar, dá à costa, também em Porto Pim outra pequena tartaruga da espécie Caretta carreta. Esta com cerca de 80 gr e bastante debilitada foi imediatamente transportada para junto das outras tartarugas no Aquário de Porto Pim (Fig. 3). 

Fig. 3 - as duas pequenas tartarugas a recuperar no Aquário de Porto Pim. 

Infelizmente, a maior das 3 tartarugas não sobreviveu à primeira noite nos tanques, tendo sido congelada para em breve ser necropsiada. As outras duas pequenas tartarugas mantiveram-se nos tanques durante cerca de 3 semanas a serem alimentadas (Fig. 4) e monitorizadas diariamente pela equipa da Flying Sharks (Telmo Morato, Rui Guedes, Luís Silva, António Godinho e Nelson Campino).


Fig. 4 - pequena tartaruga a alimentar-se de águas vivas e caravelas-portuguesas, o seu alimento preferido.

A 7 de Maio, foram finalmente devolvidas ao seu habitat natural as duas pequenas tartarugas, depois de tanto se esperar que as condições do mar estabilizassem para a sua libertação. Ambas as tartaruguinhas encontravam-se em perfeitas condições de saúde e bastante robustas, sendo que a primeira de 116 gr iniciais, registava agora 128 gr e a segunda de 80 gr registou 106 gr. Este aumento de massa deveu-se à rica dieta (águas vivas, caravelas-portuguesas e até filetes de peixe) a que estes animais foram submetidos durante o tempo que permaneceram nos tanques.

A missão de salvar estes animais não teria tido o sucesso que teve sem a colaboração valiosa das várias instituições intervenientes, IMAR-DOP/UAç, Flying Sharks e DRAM, por isso um muito obrigado a todos os que participaram nela. 

Ana Besugo

sábado, 29 de dezembro de 2012

Peixe esquisito a boiar no mar dos Açores!


·         …Um peixe esquisito foi apanhado no canal entre flores e corvo (…) a boiar por volta das 11h da manhã!

·         … Foi encontrado ali junto ao Castelete do Calhau, Faial, no fim de Julho, na costa, um peixe que não faço ideia o que seja!

 

 

Argyropelecus hemigymnus

Fotografia cedida por Gilberto Machado

O que é estranho neste peixe? Será o nome pelo qual é conhecido? Será a morfologia fora do vulgar do peixe? Será ter dado à costa a boiar?

Realmente nada neste peixe é vulgar.

Este peixe é conhecido por pai-velho, peixe-machado ou peixe-machadinha, com o nome cientifico Argyropelecus hemigymnus, e Argyropelecus aculeatus pequeno predador (3-4 cm)  da profundidade que durante a noite sobe mais à superfície para se alimentar, regressando de dia ao seu habitat natural entre os 250 a 600 m de profundidade.

Realmente o nome vulgar de peixe-machado ou peixe-machadinha entende-se pela fisionomia do mesmo uma vez que a sua forma e a cor prateada lembra um pequeno machado. Quanto ou nome pai-velho há um notório esforço criativo da parte de quem o batizou com este nome.

Dado ser um peixe de profundidade, tem órgãos luminosos na zona da barriga que emite luz para se camuflar de outros predadores da profundidade (visto de baixo a luz que emite pela barriga confunde-se com a luz que vem da superfície). Os olhos são grandes, e posicionados na parte dianteira da cabeça, permitindo-lhe uma melhor visão estereoscópica e caçar as suas presas, em ambientes onde a luz escasseia. Dado ser um predador, tem uma boca bastante desenvolvida e dentes afiados capazes de aprisionar as suas vítimas.

Estes peixes vivem em águas profundas mas por vezes são transportados para águas mais superficiais, talvez por correntes fortes criadas pelos montes submarinos e encostas das ilhas. A sua bexiga-natatória expande e impede que voltem para as profundidades a que estão adaptados. Chegam à superfície moribundos, com a bexiga-natatória expandida (bucho de fora) e ficam de lado. Dado serem prateados (refletindo a luz do sol) acabam por ser presas fáceis para as aves marinhas.

 

Argyropelecus aculeatus

Fotografia cedida por Paulo Manes

Afinal este peixe não é assim tão estranho!
:-)
 

Referências:



Agradeço aos Professores João Gonçalves, Filipe Porteiro, pela ajuda na identificação dos exemplares e a Paulo Manes, e Gilberto Machado pela cedência das fotografias.
Carlos André Fonseca

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Vinagreira, uma lesma flutuante


            A Aplysia fasciata, conhecida vulgarmente como vinagreira-negra, lebre-do-mar ou lesma do mar, é um gastrópode da família Aplysiidae. Estes gastrópodes deslocam-se sobre os fundos marinhos mas podem, também, ser vistos a nadar à superfície. Podemos encontrá-los nas águas superficiais até aos 25 m de profundidade. É uma espécie herbívora e não é vulgar aparecer nas águas açorianas contudo, nos últimos tempos têm dado à costa do Faial bastantes exemplares desta espécie.

            Em 2003 foram avistados vários exemplares desta espécie durante o mês de Junho. O primeiro avistamento realizado pelo Prof. Dr. João Gonçalves e pelo colega Gilberto ocorreu a 4 de Junho pelas 16h, Feteira. Numa faixa com cerca de 2 m de largura e 125 m de comprimento, observaram cerca de 200 exemplares de vinagreiras onde cerca de metade se encontravam mortas e secas no areal, outras estavam moribundas e, existiam ainda exemplares vivos. Para além dos exemplares foram, também, observadas 5 posturas destes animais.

            O segundo avistamento realizado pelo Prof. Dr. João Gonçalves e por um colega ocorreu a 5 de Junho pelas 9:30h nas Poças da Rainha, Feteira. Na primeira poça, avistaram 59 vinagreiras mortas, 91 vivas, 16 posturas e 18 molhos reprodutores com 3 a 4 indivíduos. Na segunda poça avistaram 80 vinagreiras mortas e 12 vivas na parte de cima da poça e, na parte mais funda da poça com ligação ao mar foram avistadas 15 vinagreiras vivas. Na terceira poça avistaram 96 vinagreiras mortas e outras 30 vivas. Na quarta poça, avistaram 11 exemplares desta espécie mortas e 43 vivas, muitas das vivas estavam agrupadas nas fissuras dos blocos que constituíam a poça. Na quinta poça, mais pequena que as anteriores, encontraram 37 vinagreiras mortas e a cheirar a podre e mais 4 moribundas. Numa sexta poça, meia seca, foram avistadas 49 vinagreiras mortas e 9 moribundas. Na sétima poça foram encontrados 51 exemplares mortos e 1 moribundo, tanto as mortas como a moribunda cheiravam a podre. Neste dia foram recolhidas várias vinagreiras para um balde de 12 L para depois serem pesadas e medidas nos laboratórios do DOP. Nos laboratórios do DOP foram medidas e pesadas 33 vinagreiras, o comprimento médio dos 33 exemplares foi de 17,65 cm enquanto que o seu peso húmido médio foi de 316,36 g.

            A 9 de Junho pelas 16h o Prof. Dr. João Gonçalves e o colega Victor Rosa avistaram, novamente, mais exemplares destes animais Neste dia os avistamentos ocorreram no porto da Feteira, onde foram observados cerca de 50 indivíduos desta espécie mortos e mais de uma dezena de posturas misturadas com sargaço. Na praia a este do porto, também, existiam vários cadáveres de vinagreiras. Neste dia encontraram, também, vinagreiras nas poças da Feteira onde se pude ver vários cadáveres e algumas vinagreiras vivas e a nadarem, apesar da maioria se encontrarem mortas. No entanto, no dia 9 de Junho existiam bem menos vinagreiras nas poças de Feteira que no dia 5 de Junho.

            Em 2009, no dia 13 de Março foi encontrada uma vinagreira junto aos barcos que fazem a travessia para o Pico. A vinagreira foi apanhada por um funcionário da Transmaçor e levada para os laboratórios do DOP para ser identificada e pesada. Esta foi identificada como sendo uma Aplysia fasciata e o seu peso fresco era de 1388,3 g, sendo o exemplar depois devolvido ao mar. Durante a sua devolução ao mar, a vinagreira libertou tinta de cor púrpura.

 

Algumas curiosidades sobre esta espécie…

- As vinagreiras alimentam-se de qualquer tipo de algas;

            - Os exemplares juvenis apresentam uma coloração avermelhada. Já os adultos têm uma coloração que varia desde o verde ao castanho, sendo por vezes avermelhada ou negro-violeta;

            - São indivíduos que podem atingir os 40 cm de comprimento e pesar cerca de 2 Kg;

            - O nome comum deriva do líquido púrpura que lançam quando se sentem ameaçadas. Esta substância não é venenosa;

            - Os adultos são muitas vezes observados durante a Primavera pois esta é a época de acasalamento, no Verão os adultos chegam mesmo a formar aglomerações de vários indivíduos para acasalamento. Os juvenis são só observados por volta do Outono;

            - O corpo é mole e apresenta um grande pé e duas expansões globulares, também conhecidos como parapódios;

            - Os parapódios são utilizados como barbatanas quando estes animais nadam;

            - As vinagreiras são animais que podem ser encontrados em zonas de águas salobras e estuários, no ambiente marinho pelágico costeiro, em recifes de coral e costas rochosas;

            - As vinagreiras assemelham-se muito, em aparência, às lesmas e por vezes, também, são conhecidas como lesmas do mar. São as únicas lesmas que conseguem nadar.

 

Referências





Joana Botelho

A Nadine, os Açores e um caranguejo!

No dia 19 de Setembro de 2012, durante um passeio na praia de Porto Pim, enquanto a tempestade tropical Nadine deu breves minutos de tréguas, uma estudante do mestrado de Estudos Integrados dos Oceanos, Michelle Branã encontrou no areal uma espécie invulgar de caranguejo. O Albunea carabus, também conhecido por caranguejo-da-areia, é um crustáceo pouco avistado nas águas dos Açores. A sua presença é predominante do Oceano Atlântico-Este e do Mar Mediterrâneo, havendo também alguns avistamentos na costa de países africanos. A predileção destes invertebrados por ambientes sedimentares, caracterizados por elevado hidrodinamismo e turbidez, estará associada à sua distribuição e aos seus hábitos alimentares e comportamentais. O caranguejo-da-areia é um organismo bentónico que se enterra na areia e alimenta-se de matéria orgânica em suspensão na água e pode ser encontrado entre os 3 m e os 40 m de profundidade. As suas larvas superam 5 estágios de desenvolvimento planctónico (“zoea instar”), que é caracterizado pelo uso de apêndices torácicos para natação, antes de alcançar o estado juvenil. Estes animais necessitam de se libertar das suas carapaças de maneira a poderem aumentar o seu tamanho, num processo denominado por mudas. Tipicamente, este caranguejo possui o corpo segmentado com um par de apêndices em cada segmento, uma carapaça quitinosa quadrangular, com uma depressão côncava na zona posterior, pernas achatadas para escavar a areia e um par de antenas muito desenvolvidas.


O espécime encontrado pesava 14,5 g , tinha um comprimento total de 14,5 cm e a largura da carapaça era de 24,7 mm. Provavelmente era uma fêmea não ovada.


Mais recentemente, no mês de Novembro, um outro estudante do curso CET OpMar, Jonathan Biddle, encontrou também ele, na praia de Porto Pim, 3 animais desta mesma espécie, numa semana em que os Açores foi fustigado pelo estado do tempo com ventos fortes e agitação marítima. Tal poderá indiciar que a presença destes animais na costa dos Açores poderá estar associada a condições climatéricas particulares, nomeadamente ventos fortes e elevada agitação marítima, como as evidenciadas durante os dias em que foram encontrados os animais já mencionados.


Comprimento da carapaça (mm): 20,8
Comprimento máximo da carapaça,medida do lado esquerdo (mm): 27,2
Largura da carapaça (mm): 24,7
Comprimento total sem antenas, com abdómen estendido (mm): 51
Comprimento total com antenas, com abdómen estendido (cm): 14
Peso fresco (g): 14,5

O Albunea carabus foi pela primeira vez descrito no ano de 1758 por Carl Linneaus na 10º edição do Systema Naturae. é um crustáceo pertencente à ordem dos decápodes. Pertence a uma família de caranguejos com mais de 50 espécies identificadas e 9 espécies já extintas e que têm como principal característica a capacidade de se soterrarem na areia, criando um espaço apropriado para se abrigarem.



Mais informações:
Publicado por: Gonçalo Figueira

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Pyrosoma atlanticum, uma colónia deambulante

No dia 9 de novembro de 2012 pela manhã, a equipe de mergulhadores do Projeto Caulerpa realizou mais um dos habituais mergulhos para prospecção da alga invasora Caulerpa webbiana. O mergulho teve lugar junto ao Molhe Velho da Horta no sentido da Baía de Entre Montes, e foi lá que um dos mergulhadores, Luís Roque, achou este organismo que deambulava pela coluna de água. Sem saber do que se tratava, o mergulhador decidiu trazer o organismo para terra para ser posteriormente ser identificado.  


Mergulhadora da Equipe Caulerpa, Ana Besugo, com o Pyrosoma atlanticum na mão. 
(Foto: Frederico Gardigos)



Pyrosoma atlanticum e seus constituintes, os zoóides 
(Foto: Frederico Cargidos)


Pyrosoma atlanticum, evidenciando a sua forma tubular e podendo ver-se os zooóides na periferia. 
(Foto: Frederico Cargidos)

Algumas curiosidades:

Pyrosoma atlanticum, é uma colonia de forma cilíndrica que pode crescer até 60 cm de comprimento e 4-6 cm de largura e é constituída por organismos denominados zoóides que formam um tubo rígido que pode ser cor de rosa pálido, amarela ou azulada. Uma extremidade do tubo é mais estreita enquanto  a outra é aberta e possui um diafragma forte. A sua superfície exterior é do tipo gelatinosa. Este organismo alimenta-se maioritariamente de plâncton e outras partículas de alimento que são bombeados para as suas fendas branquiais através da ajuda de cílios. Pyrosoma atlanticum, é bioluminescente e pode gerar uma luz azul-esverdeada brilhante quando estimulado. Pode ser encontrado em águas temperadas em todos os oceanos do mundo, geralmente entre 50 ° N e 50 ° S. É mais abundante em profundidades abaixo de 250 m. As colónias são pelágicas e movem-se através da coluna de água. Efetuam migrações verticais diárias, subindo em direção à superfície ao início da noite e aos nascer do dia regressam a zonas mais profundas. Grandes colónias podem percorrer uma distância vertical de cerca de 760 m por dia, enquanto que as mais pequenas, apenas alguns milímetros de comprimento, percorrem distâncias verticais mais curtas  -90 m.     

Num dos laboratórios do DOP, a colónia de Pyrosoma atlanticum, foi medida, pesada e fotografada.

Peso húmido: 170,2 g                   Comprimento total: 23 cm                                Largura máxima: 6 cm

Pyrosoma atlanticum,depois de medido e pesado. 

Pyrosoma atlanticum, evidenciando os seus zoóides  


Ana Besugo

Para saber mais: