segunda-feira, 10 de março de 2014

Apanhada a maior lula-mansa de sempre?



No passado mês de janeiro foi apanhada uma enorme lula-mansa (Loligo forbesii) na ilha do Pico com pouco mais de 9 kg de peso. Apesar de a lula-mansa dos Açores atingir maiores dimensões que as suas congéneres continentais, esta lula em particular, tinha dimensões apreciáveis.




Ocorrência:
No passado dia 24 de Janeiro de 2014 este exemplar (Fig. 1) foi observado à venda no hipermercado na Madalena, na ilha do Pico. Tratava-se de um indivíduo de dimensões fora do comum. Tirou-se uma fotografia para a sua posterior análise. Este indivíduo foi rapidamente identificado como Loligo forbesii (lula-mansa), devido às suas típicas riscas na parte anterior do manto. Este exemplar é de certeza um macho, dado que na espécie local estes são muito maiores do que as fêmeas. Este exemplar foi capturado pelo Mestre Francisco José Bettencourt, fora de São João do Pico à profundidade aproximada de 165 m, com uma toneira comercial de duas coroas.
Esta lula tinha um peso em fresco (húmido) de 9,015 kg. O comprimento do animal foi calculado através da fotografia (Fig. 1), para isso recorreu-se ao software gráfico “Arc Gis”. Como escala, foi utilizado a distância interna de bordo a bordo da bancada (98,5 cm). Efectuaram-se duas medições da qual resultou uma média de 99,83 cm param o comprimento dorsal do manto.


Figura 1 – Exemplar de Loligo forbesii fotografado na peixaria do hipermercado da Madalena do Pico.
Casos Anteriores:

Ao compararmos estes valores com os valores máximos registados para o comprimento e peso desta espécie, 93,7 cm[i] e 6,230 kg[ii], respectivamente, verificamos que estamos perante um novo recorde. É verdade que há testemunhos de lulas-mansas de maiores dimensões, mas não existe nenhum registo que o possa comprovar.

Pesca:
Nos Açores a Loligo forbesii ou lula-mansa, como é vulgarmente conhecida, é uma fonte importante de rendimento dos pescadores quando as quotas dos peixes de fundo são atingidas. Inicialmente esta pesca alimentava apenas os mercados locais mas posteriormente deu-se a abertura para o mercado continental. A pesca de lula-mansa nos Açores tem uma longa tradição, embora não se saiba a sua origem. A pesca é praticada em todas as ilhas do Arquipélago dos Açores e realiza-se normalmente durante o dia. Para a sua captura utiliza-se várias artes de  pesca, sendo a mais comum a toneira (Fig. 2), que consiste numa amostra com uma ou duas coroas de agulhas virados para cima. Ao produzir-se movimentos verticais, o chamado de “jigging”, a lula é atraída. Ao atacar a amostra a lula fica presa pelos tentáculos nas agulhas e por vezes pelos braços também.


    Figura 2 - Exemplo de toneira utilizada na faina da lula


Curiosidades:
À semelhança dos outros cefalópodes, possuem simetria bilateral, olhos bem desenvolvidos, a boca é redonda com um par de poderosas mandíbulas móveis, em forma de "bico de papagaio", que podem cortar e rasgar a presa. Possuem 8 braços e 2 tentáculos que utilizam para capturar alimento. A pele contém células pigmentadas, chamadas cromatóforos, que mudam de cor para efeitos de comunicação e camuflagem. Graças ao seu sistema nervoso extremamente desenvolvido estes animais maravilham-nos com uma multidão de cores e padrões. São animais carnívoros, alimentando-se principalmente de pequenos peixes, na sua dieta também consta crustáceos e outros invertebrados, e como acontece nas outras lulas, esta também exerce canibalismo. A sua distribuição geográfica abrange o Atlântico Nordeste, Mar Mediterrâneo e Mar Vermelho, a costa Este de África e tem como fronteira Oeste os Açores. Esta espécie possui dimorfismo sexual, sendo os machos de maiores dimensões que as fêmeas, atingem a sua maturidade sexual com cerca de um ano de vida e possuem uma longevidade pequena, entre 1-2 anos, podendo atingir os 3 anos de idade.
A população desta espécie dos Açores está também geneticamente diferenciada da população continental europeia, e por isso há quem considere que possa ser uma sub-espécie.


Agradecimentos:
Um agradecimento especial ao Doutor Professor João Gonçalves pela ajuda a estabelecer contactos e pelo fornecimento de informação.
 Queria agradecer também ao Sr. Rui Pires da peixaria do “Compre Bem” da Madalena, pelo fornecimento de dados e ao mestre Francisco José Bettencourt pela disponibilidade para responder às questões colocadas.


Para saber mais:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lula-mansa
 


[i] Porteiro, F.M.; Martins, H.R. 1994. Biology of Loligo forbesii Steenstrup, 1856 (Mollusca: Cephalopoda) in the Azores: sample composition and maturation of squid caught by jigging. Fisheries Research. 21: 103-114.

[ii] Martins, H.R. 1982. Biological studies of the exploited stock of Loligo forbesii (Mollusca: Cephalopoda) in the Azores. Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom, 62: 799-808.


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Boca-negra recapturado 13 anos depois de ter sido marcado!

No dia 3 de Outubro recebi de uma colega de S. Miguel um mail com informação de vários peixes capturados com marca. Entre estes destacava-se um Boca-negra (Helicolenus dactylopterus dactylopterus) que esteve marcado durante 13 anos. Este peixe, com a marca T-1-0725, foi marcado e recapturado no Banco Princesa Alice e durante este tempo cresceu 15 cm de comprimento total. O Mestre Pedro Moniz da embarcação “O Aresta” que capturou este exemplar aos 495 m de profundidade, recebeu como recompensa uma t-shirt do “Programa de Marcação de Peixes dos Açores”.

Fig. 1 - Fotografia de um boca-negra marcado (marca assinalada com um círculo vermelho).
 
Curiosidade: O “Programa de Marcação de Peixes dos Açores” do DOP decorre desde o ano 1999 e já marcou até hoje mais de 22000 indivíduos de várias espécies. As espécies mais marcadas são o Goraz (Pagellus bogaraveo) e o Boca-negra (Helicolenus dactylopterus dactylopterus). Este programa utiliza marcas amarelas numeradas (tipo “esparguete”) e de diferentes tamanhos. Estes estudos de marcação e recaptura são muito importantes para melhorar o conhecimento dos movimentos das espécies, assim como a sua taxa de crescimento ao longo do tempo.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Maré “vermelha” na Lagoa St. Cristo – S. Jorge!

No passado dia 2 de setembro ocorreu uma maré vermelha na Lagoa de St. Cristo. O evento (Fig. 1) foi registado pelos serviços do Parque Natural da Ilha de S. Jorge (PNISJ – biólogo Rui Sequeira), depois de ter sido alertado do fenómeno por moradores locais. Para além da coloração anormal da água, que neste caso era mais amarelada do que propriamente vermelha, ocorreu também mortalidade de peixes, sobretudo de tainhas (Chelon labrosus).

Fig. 1 - Fotografia da Lagoa da Fajã de St Cristo no dia 2/9/2013, podendo-se ver a mancha amarelada-acastanhada na água. Autor: Rui Sequeira - PNISJ.

Dada a invulgaridade deste tipo de fenómenos nos Açores, o PNISJ procedeu à recolha de amostras de água e de peixes mortos. Inicialmente estas amostras foram enviadas para o DOP onde se constatou a presença de pequenos dinoflagelados nas amostras de água. Aqui as amostras foram preservadas e enviadas posteriormente para Lisboa (Vanda Carmo), para o laboratório marinho do IPMA (Instituto Português do Mar e da Atmosfera), onde as biólogas Mariana Santos e Teresa Moita, especialistas em microalgas, acabaram por identificar e quantificar o agente causador desta maré. Tratou-se do dinoflagelado Alexandrium minutum (Fig. 2), que ocorreu em grande concentração nas amostras recolhidas (1,26 x 10celulas.L-1 ). Tanto quanto se sabe trata-se da primeira maré vermelha registada nos Açores.
Informado do potencial tóxico desta espécie o Governo Regional dos Açores (Secretaria Regional dos Recursos Naturais), decretou a proibição temporária do consumo de amêijoas na Lagoa de St. Cristo (Portaria nº 68/2013).

Fig. 2 - Fotografia ao miscroscópico ótico do dinoflagelado Alexandrim minutum. Autor: Mariana Santos - IPMA.

Consequências:
Posteriormente soube-se que houve alguns casos de queixas registadas na Unidade de Saúde de S. Jorge, associados a este fenómeno, provavelmente originados pela toxina PSP (“Paralytic Shellfish Poisoning) que este dinoflagelado produz quando ocorre em grandes concentrações. As pessoas afetadas tinham consumido as famosas amêijoas da lagoa de St. Cristo (Venerupis decussata) ou simplesmente ingerido água acidentalmente durante os banhos na lagoa. Apresentaram sintomas de dormência dos membros e tonturas, que se prolongou por alguns dias.
O fenómeno que tinha evoluído durante os dias quentes de final de agosto e sem grandes ventos, acabou por dissipar-se de forma natural nos dias seguintes, assim que as condições de meteorológicas se modificaram.

Ocorrências:
Esta espécie de dinoflagelado ocorre naturalmente na zona costeira de vários mares (Mediterrâneo, Mar Adriático) e oceanos (Atlântico Norte, Sul, Índico e Pacífico), incluindo a costa continental portuguesa. Quando ocorre em grandes concentrações tem provocado marés vermelhas tóxicas em várias zonas  do mundo (sul da Austrália, Nova Zelândia, Taiwan; França - Mediterrâneo). 

Considerações finais:

A divulgação científica desta ocorrência invulgar nos Açores será feita através de uma comunicação no XII Reunión Ibérica sobre Microalgas Nocivas e Biotoxinas” que vai decorrer nos dias 17 e 18 do corrente mês, em Palma de Maiorca.

Para saber mais:
- Alexandrium minutum - Marine Species Identification Portal;
- Anderson, M., 1998. NATO ASI Series, 41: 29-48.