segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Ocorrência régia: um rei-dos-arenques



Um peixe rei-dos arenques foi apanhado vivo (Foto 1), utilizando um camaroeiro, no dia 16 de abril de 2014, por Miguel Carvão. O peixe encontrava-se desorientado à superfície dentro da marina da Horta perto do edifício do Clube Naval. Após a captura foi transportado para o aquário de Porto Pim, onde acabou por não sobreviver, sendo entregue para a coleção biológica do DOP-UAç.
A identificação deste peixe acabou por se revelar uma tarefa difícil.

Dados do exemplar:

Este exemplar era um juvenil com 18,8 cm de comprimento furcal e 26,7 cm de comprimento total (incluindo o comprimento da barbatana caudal) e com aproximadamente 22 g de peso húmido. O eixo longitudinal do corpo é horizontal (sem curvatura). A zona mais alta do corpo situa-se na zona frontal (primeiro quarto) e o ânus situa-se pouco atrás da linha mediana do corpo. A coloração do corpo é prateada com manchas negras nos flancos, três na zona dorsal e uma na zona ventral (Foto 2). As barbatanas são finas e rosadas, tendo a dorsal 133 raios, embora pudessem haver mais alguns que se degradaram e não puderam ser contados.
A forma peculiar do corpo e das barbatanas do rei-dos arenques permitiu classificá-lo como pertencente à Familia Trachipteridae e ao género Trachipterus.

Foto 1 – O rei-dos-arenques dentro do recipiente de transporte.


Ocorrências anteriores:

Nos Açores é conhecida uma espécie de rei-dos-arenques, Trachipterus trachypterus (Whitehead, 1986; Santos et al, 2001; Borges et al, 2010). Contudo, na zona este do Atlântico Norte, ocorre outra espécie bastante semelhante, T. arcticus (Figueiredo et al., 2007).
Na coleção de referência biológica do DOP-UAc há um exemplar juvenil de T. articus, ligeiramente maior (ref. DOP-3807 – coluna com 100 vértebras), mas com características morfológicas idênticas à do indivíduo mais recente. Assim, pelas evidências recolhidas o novo indivíduo integra-se também na espécie T. articus.

Foto 2- Rei-dos-arenques apanhado em 16-04-2014.


Curiosidades:

Os reis-dos-arenques têm um corpo muito estreito e longo, que nos exemplares adultos pode chegar aos 3 m de comprimento. Assemelham-se muito a outros peixes muito longos, como o Regalecus glesne que pode chegar aos 7 m de comprimento, e pensa estarem na origem das antigas descrições de serpentes marinhas gigantes.
Apesar do seu tamanho estas espécies não têm interesse económico.

Biologia:

Os reis-dos-arenques são peixes pelágicos que vivem no oceano aberto, longe das costas e em profundidades abaixo dos 300 m. Pensa-se que sejam animais solitários mas que de tempos a tempos formam grandes cardumes, provavelmente para a reprodução, alimentação ou outra razão desconhecida. São caçadores oportunistas que atacam presas que passem demasiado perto. Apesar dos dentes serem muito pequenos, a boca é muito extensível e cria um grande poder de sucção, que lhe permite capturar pequenos peixes e lulas. Não há praticamente informações sobre o seu ciclo vida, reprodução e comportamento.

Para saber mais:

- Características diagnosticantes dos Trachipterus no AtIântico Norte:

Trachipterus arcticus: Eixo do corpo direito, possui 150-190 raios na barbatana dorsal, a altura do corpo (distância entre a margem dorsal e ventral) maior no primeiro quarto a um terço do corpo (Whitehead, 1986), o ânus situa-se ligeiramente atrás do meio do corpo (Albuquerque, 1956) e apresenta 1-5 pontos negros que desaparecem nos indivíduos maiores (Whitehead, 1986). O número de vértebras varia entre 99-102 (Albuquerque, 1956). 

Trachipterus trachypterus: Eixo do corpo curvado para cima na zona posterior da cauda nos adultos (linear nos juvenis), possui 145-185 raio na barbatana dorsal, a altura do corpo é maior imediatamente atrás da cabeça (Whitehead, 1986). O ânus encontra-se antes do meio do corpo (Albuquerque, 1956) e apresenta 1-4 pontos negros ao longo da linha lateral e 1-2 pontos negros na zona ventral. O número de vértebras varia entre 84-96 (Heemstra & Kannemeyer, 1984)

Bibliografia:

Albuquerque, R.M. (1956). Peixes de Portugal e Ilhas adjacentes. Chaves para a sua determinação. Portugaliae Acta Biológica, 5, 1–1164
Borges, P. A. V. et al., (Eds.). (2010). A List of the Terrestrial and Marine Biota from the Azores. Princípia, Cascais, 432 pp.
Figueiredo, I. et al. (2007). Identification of Trachipterus in the north-eastern Atlantic. JMBA2 - Biodiversity Records. Published on-line.
Heemstra, P. C. & Kannemeyer, S. X. (1984). The families Trachipteridae and Radiicephalidae (Pisces, Lampriformes) and a new species of Zu from South Africa. Annals of the South African Museum, 94, 13–39.
Santos, R. S. et al. (2001). Marine Fishes of the Azores: Annotated checklist and bibliography. Arquipélago – Life and Marine Sciences. Supplement 1, Universidade dos Açores, Ponta Delgada, 244 pp.
Whitehead, P. J. P. et al., (Eds.). (1985). Fishes of the North-eastern Atlantic and the Mediterranian. Paris: UNESCO. 403 pp.
           

Agradecimentos:

Ao aquário de Porto Pim, nomeadamente, ao seu representante António Godinho.
Ao Miguel Carvão pela cedência da sua captura.
Ao técnico Rui Gregório do centro de Saúde da Horta que permitiu fazer a contagem das vértebras.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Captura insólita de um peixe luciano nas Flores

Ocorrência:

Na sequência de uma tarde de caça submarina durante as férias, os caçadores-submarinos Pedro Lima e Sílvio Gonçalves, capturaram na tarde do dia 30 de julho passado, numa cavidade de uma baixa da costa da Fajã Grande das Flores, a cerca de 10-12 m de profundidade, um peixe de bom tamanho (14,84 kg de peso - Foto 1), desconhecido para todos os intervenientes. Depois de averiguações com pescadores e conhecedores locais constatou-te que se tratava de uma captura inédita. Após pesquisas na internet constataram que deveria ser um pargo-luciano, podendo tratar-se de uma primeira ocorrência nos Açores. Daí resolveram contactar-nos para obter esclarecimentos complementares.


Peixe-luciano capturado nas Flores em 30/7/2014. Foto: Pedro Lima.

Dados e identificação:

A partir das informações e fotografias enviadas foi possível inferir as dimensões e género do peixe. Era uma fêmea com 108,7 cm de comprimento total e com ovas desenvolvidas. Pela contagem das escamas, espinhos e raios das barbatanas feitas a partir das fotografias tentou-se identificar o indivíduo, recorrendo à obra de referência da FAO para estes peixes1. Não há dúvida que se tratava de um peixe do género Lutjano. Após contactos com vários especialistas (Peter Wirtz, John Randall, João Pedro Barreiros, Ronald Fricke e Pedro Afonso), o peixe encaixa bem na descrição de duas espécies: Lutjanus cyanopterus da costa oeste do Altântico e L. dentatus da costa este do Atlântico. Ambas têm características semelhantes e dentes bem desenvolvidos (Foto 2).


Foto 2- Outra perspectiva do mesmo peixe-luciano em que se vêm os dentes bem desenvolvidos. Foto: Pedro Albergaria.

Em português os peixes deste género são conhecidos oficialmente como lucianos ou castanholas (Anexo I da Portaria nº 587/2006 de 22 de junho), embora a sua semelhança com os pargos os leve também a ser conhecidos como pargos-lucianos. Esta designação poderá também dever-se ao facto de em espanhol estes peixes serem também designados por pargos. 

Informações biológicas:

Lutjanus cyanopterus é uma espécie subtropical que vive ao longo das costas orientais do continente americano (da Nova Escócia até ao Brasil, incluindo Caraíbas, Bermudas, Florida e Golfo do México) dos 18 até aos 55 m de profundidade. Podem atingir 1,6 m de comprimento e 57 kg de peso. Em termos de conservação tem o estatuto de espécie Vulnerável de acordo com a lista vermelha da IUCN. Alguns dos exemplares maiores desta espécie já provocaram envenenamentos por ciguatera. O nome comum em inglês é “cubera snapper”.
Lutjanus dentatus é uma espécie tropical e subtropical que vive ao longo das costas ocidentais de África (do Senegal até Angola, passando pelo Golfo da Guiné). Pode alcançar 1,5 m de comprimento total e 50 kg de peso. Não tem estatuto de conservação na IUCN. O nome em inglês é “African brown snapper”. Esta espécie foi muito recentemente encontrada nas Canárias2, onde já era conhecida uma outra espécie destes peixes (Lutjanus goreensis).
Ambas as espécies são predadores bentónicos que se alimentam de outros peixes e crustáceos (camarões e caranguejos). De uma forma geral os peixes desta família (Lutjanidae) têm sexos separados (dioicos) que mantém ao longo da vida (gonocorismo) e não têm dimorfismo sexual externo. A fecundação é externa e dá origem a larvas pelágicas que após 1 a 1,5 meses passam à vida bentónica em águas costeiras. São espécies de crescimento rápido que podem atingir os 20 anos de idade, tendo grande interesse comercial e para as actividades lúdico-desportivas marinhas.

Considerações finais:

Apesar de haver alguns registos de capturas de pargos-lucianos no continente português (ver Pargos lucianos Portugal, em baixo), esta ocorrência nas Flores é sem dúvida o maior exemplar encontrado em território nacional.
Como no estado adulto estes peixes não vivem em grandes profundidades, é possível que este exemplar tenha chegado às Flores na fase pelágica, crescendo posteriormente por cá. Parece menos provável que um exemplar na fase bentónica tivesse feito uma travessia oceânica para chegar às Flores.
Resta confirmar de que espécie se trata realmente, para saber de onde veio. Felizmente que ainda existem partes congeladas deste peixe luciano, para se tentar chegar à identificação por métodos genéticos.  
Este caso é um exemplo muito interessante de como uma observação invulgar feita durante uma férias pode dar origem a um problema científico posterior, que esperamos vir a conseguir resolver nos próximos tempos, provavelmente através de uma publicação científica. O conhecimento dos oceanos é assim uma tarefa que pode e deve envolver toda a comunidade.  


Referências:

 1 - Allen, G.-R.(1985). FAO Species Catalogue. Vol. 6: Snappers of the World. An Annotated and Illustrated Catalogue of Lutjanid Species Known to Date. FAO Fisheries Synopsis, 125, Vol. 6 (FIR/S125 Vol. 6). FAO, Rome. 208 pp. (acessível em: www.fao.org/docrep/009/ac481e/ac481e00.htm)
 2- García-Mederos, A. & V. Tuset (2014). First record of African brown snapper Lutjanus dentatus in the Canary Islands (north-eastern Atlantic Ocean). Marine Biodiversity Records, Vol. 7; e65; 2014, page 1 of 3 ; Published online. (doi:10.1017/S1755267214000682)

Para saber mais:

Pargos-lucianos Portugal:
   - Clube Peca Sub
    - Os Pescas 

Agradecimentos:

Agradece-se toda a informação e fotos cedidas pelos autores da captura e cedência de fotografias (Pedro Lima, Sílvio Gonçalves e Pedro Albergaria), sem as quais esta ocorrência passaria despercebida.   

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Salemão nos Açores!



Ocorrência:
No passado dia 03-09-2014, foi capturado pelo jovem pescador submarino Cárin Almeida, pela hora de almoço, perto da zona balnear da Fajã Grande em São Jorge, um espécime de “rainbow runner” (Figura 1) ou como é conhecido em português – Salemão (Elagatis bipinnulata). Infelizmente não foi possível saber as suas dimensões e peso exactos, mas estima-se que tinha aproximadamente 30 cm de comprimento total.

Figura 1- Espécime capturado no dia 03/09/2014 (Fotografia cedida por Cárin Almeida).
Registos anteriores:
O salemão foi descrito pela primeira vez para os Açores desde de 19931 sendo mais tarde reconfirmada a sua presença em 19952. Apesar deste peixe pelágico habitar as zonas tropicais e subtropicais de todos os oceanos3, é um peixe cuja ocorrência é rara no nosso arquipélago.

Curiosidades:
O salemão pertence à família Carangidae da qual fazem parte os Lírios. Apesar de apresentar um comportamento semelhante (aproximando-se dos mergulhadores sem apresentar muito receio), tem uma morfologia que o distingue dos restantes membros da mesma família, que apresentam em geral um corpo longo e comprimido lateralmente, enquanto que o salemão possui um corpo ligeiramente cilíndrico, quase fusiforme (característico dos atuns)4. Apresenta uma tonalidade característica (Figura 2) que facilita a sua identificação e que valeu o nome em inglês de “rainbow runner”. Tem o dorso azul desvanecendo para um verde até se tornar branco em baixo. Apresentam também duas linhas longitudinais finas de cor azul brilhante nos lados do corpo e entre elas uma faixa mais espessa de cor amarela ou esverdeada. Normalmente é avistado em grandes cardumes, mas por vezes encontram-se indivíduos solitários como foi o caso desta captura.

Figura 2- Salemão, Elagatis bipinnulata. Fonte: John E. Randall / EOL. License: CC BY Attribution-Noncommercial


Referências:
1.    ICN 1993. Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Vol. III. Peixes marinhos e Estuarinos. Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa. 146 PP.
2.    Azevedo, J. M., Heemstra, P. C. 1995. "New records of marine fishes from the Azores". Arquipélago. Life and Marine Sciences 13 (A): 1–10.
4.    Gunn, John S. 1990. "A revision of selected genera of the family Carangidae (Pisces) from Australian waters". Records of the Australian Museum Supplement 12: 1–78. doi:10.3853/j.0812-7387.12.1990.92

Para saber mais:

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Maior Boga do Mundo no Pico

Ocorrência:
Um exemplar de boga-do-mar (Boops boops) com 1260 g de peso (húmido) e 44,5 cm de comprimento total, foi vendido num supermercado da Madalena do Pico (Compre-Bem) no dia 17 do passado mês de maio. Tratava-se de uma fêmea  que estava em avançado estado de maturação, com gónadas bem desenvolvidas (72 g, correspondendo a índice gónado-somático de 5,7%). 
Boga-do-mar (Boops boops) apanhada no Pico em meados de maio de 2014.


Gónadas femininas (ovas) do mesmo indivíduo


Esta boga tinha sido apanhada na costa da ilha do Pico, nos dias anteriores. Curiosamente este indivíduo não tinha na boca os típicos isópodes parasitas que costumam existir na maioria das bogas.
Comparando esta ocorrência com os dados publicados para esta espécie (máximo de 36 cm), constata-te que este é o maior indivíduo registado em termos mundiais. 

Outras medidas:
Esta boga tinha 42,3 cm de comprimento furcal. A barbatana dorsal tinha 15 raios duros e XII raios moles. A barbatana anal tinha 1 raio duro pequeno, 1 raio duro maior e XV raios moles. 

Para saber mais:

terça-feira, 20 de maio de 2014

Comer peixe-coelho pode provocar queriorreia


O título anterior está relacionado com o consumo de um grupo particular de peixes marinhos: os escolares. Vejamos então!

Ocorrência:
Um peixe-escolar apareceu à venda em 21-02-2014 na peixaria de um hipermercado da Madalena (da ilha do Pico). Como se tratava de um peixe um pouco diferente dos habituais escolares, foi observado com mais atenção. De facto, tratava-se de um peixe coelho-do-alto (foto 1), também conhecido como escolar-branco ou peixe-coelho (Promethichthys prometheus), com 3,9 kg de peso, que tinha sido apanhado na aurora desse dia pelos Srs Daniel e Bruno Freitas, a cerca de 130 braças de profundidade (~ 240 m), quando pescavam de gorazeira no Baixio da ponta este da Ilha do Pico (~3 milhas náuticas da costa). Este exemplar tinha 87,7 cm de comprimento standard (SL) e 93,6 cm de comprimento total, tratando-se de um exemplar de considerável dimensão para esta espécie, que pode chegar a ter 1 m de SL1. A contagem dos raios das barbatanas (ver tabela) integra-se nos limites indicados para esta espécie.

Foto 1- Peixe coelho-do-alto (Promethichthys prometheus) com 87,7 cm (SL) e 3,9 kg de peso apanhado em 21/04/2014 na ponta este da ilha do Pico (Açores).
Tabela
Contagem dos raios na barbatanas do peixe-coelho apanhado a 21/02/2014 na ponta este da ilha do Pico (Açores).

1º dorsal
2ª dorsal
Anal
Peitorais
Raios duros
18
2
2
0
Raios moles
0
18
15
14

Por observação das gónadas verificou-se que era uma fêmea, em estado de repouso reprodutivo – pós-postura (foto 2). No estômago só se encontrou o isco (pedaço de peixe espada branco). Verificou-se que as escamas apesar de visíveis não são facilmente destacáveis parecendo estar cobertas por uma membrana transparente.
Foto 2- Gónadas do mesmo peixe-coelho da foto 1, podendo ver-se que se trata de uma fêmea (A - vista geral das gónadas; B - pormenor do corte de uma das gónadas, vendo-se os tecidos internos com a aparência típica de pós-postura).  

Registos anteriores:
A ocorrência do peixe coelho-do-alto nos Açores está registada, pelo menos desde 19542, tendo o nome geral de escolar-branco para português3. Em inglês é designado por roudi escolar1, e chega a ter nomes mais populares de “butterfish”, “super white tuna”, “king tuna”, “oilfish” ou ainda como “white escolar”.
É uma espécie cosmopolita demersal que ocorre em todos os oceanos do mundo entre os 80 e 800 m de profundidade (meso-bentopelágico), em zonas temperadas e tropicais.
Ocorrem nos Açores mais 4 espécies de peixes conhecidos pelo nome comum de escolares: Ruvettus pretiosus; Lepidocybium flavobrunneum; Nesiarchus nasutus, e Gempylus serpens. Algumas destas espécies atingem tamanhos bastante maiores ao do coelho-do-alto.

Curiosidades:
Apesar do peixe coelho-do-alto ser comestível é preciso ter cuidado com o seu consumo. É um peixe gordo, extremamente delicioso quando grelhado, pelo que há a tentação de comer demais! O pior vem depois. Como o conteúdo oleoso advém de estéres-cerosos, que o peixe adquire das suas presa e não consegue metabolizar, acaba por as acumular no seu corpo (cerca de 23% do total). No homem estas substâncias não são absorvidas e acabam por provocar diarreias oleosas alaranjadas, que passam praticamente despercebidas, muitas vezes em ocasiões pouco convenientes. Este tipo de diarreia oleosa derivada do consumo destes peixes tem mesmo uma designação específica: queriorreia. Em vários países, este peixe foi considerado tóxico, em resultado destas consequências desagradáveis. Por outro lado, as substâncias cerosas são consideradas como gempilotoxinas, que se assemelham a óleos minerais, mas não são realmente toxinas.
Contudo, caso não se consuma com frequência, não mais de ~120 g de cada vez, e esteja bem grelhado para libertar grande parte da gordura, que não deve ser consumida, acaba por não trazer consequências de maior. De qualquer forma, o peixe coelho do alto parece ser “menos perigoso” em termos alimentares que outras espécies de escolares. 

Agradecimentos:
Aos Sr Daniel Freitas e Bruno Freitas pelas informações dadas relativas à pesca deste peixe. Igualmente se agradece ao Sr. Rui Pires, gerente da peixaria do hipermercado “Compre-Bem”, que amavelmente localizou a embarcação que tinha pescado este exemplar. Um agradecimento também à Dra Angêla Canha do DOP por ter analisado o estado de maturação das gónadas.

Referências:

  1.     Fishbase: www.fishbase.org/summary/5008
  2.        Santos, R.S., F.M. Porteiro & J.P. Barreiros, 1997. Marine fishes of the Azores: annotated checklist and bibliography. Bulletin of the University of Azores. Supplement 1. 244 p.
  3.        Sanches, J.G., 1989. Nomenclatura Portuguesa de organismos aquáticos (proposta para normalizaçao estatística). Publicaçoes avulsas do I.N.I.P. No. 14. 322 p.

Para saber mais:

terça-feira, 18 de março de 2014

"Legumes do mar" saltam para as suas receitas

Iniciada a época de "caça" à "erva-patinha"na região Açoriana!

    As algas são excelentes fontes de fibra, minerais e nutrientes. São alimentos seguros para saúde. No geral, podem ser utilizadas numa vasta variedade dietética. Estas podem substituir o arroz, batatas assadas e a salada ou serem acrescentadas a sopas, caldos, cozidos e guisados. Alguns destes “legumes do mar” já são consumidos pelos Portugueses, como é o exemplo do consumo de “erva patinha”/ “erva do calhau” e “esparguete da costa” na região Açoriana.

    Para muitos, as algas são pouco peculiares no cardápio humano sendo muitas vezes associadas a regimes culinários e astronómicos de zonas orientais. Por serem ricas em proteínas, fibras, minerais, lípidos, hidratos de carbono, vitaminas, ferro, iodo (mineral essencial ao correcto funcionamento da tiróide) e antioxidantes são hoje em dia cada vez mais procuradas pelos cozinheiros e pessoas que procuram uma receita alternativa e nutritiva. A ação dos ingredientes ativos presentes nas algas promove o aumento da síntese proteica e a aceleração da regeneração celular cutânea. Muitas contêm níveis elevados de aminoácidos essenciais, semelhantes a leguminosas e ovos.

     Vitamina A, C e E também são encontradas nas algas em quantidades úteis, e também são uma das poucas fontes vegetais de vitamina B12. Para os vegetarianos e para os que consomem pouca ou nenhuma carne ou peixe, as algas marinhas podem ajudar a reabastecer ou a manter as reservas de ferro. A ingestão regular de algas pode também ajudar a combater a anemia. Maior parte das algas marinhas é rica em ómega-3, um nutriente essencial com inúmeros benefícios à saúde, incluindo a redução do colesterol e melhoramento da saúde do coração. Enquanto os seres humanos obtêm a maior parte do ómega-3 através da ingestão de peixes marinhos, as preocupações com a sustentabilidade promoveram a que algumas empresas explorassem estas algas e outras como fonte mais viável destes nutrientes.

     As algas marinhas são uma das maiores “jóias do mar”. São organismos que crescem em água salgada e tal como as plantas terrestres necessitam de luz solar para prosperar. Existem inúmeras variedades de algas, sendo classificadas a partir da sua coloração, podendo ser designadas algas verdes, vermelhas ou castanhas. Cada alga é única na sua forma, sabor e textura. Apesar da abundância de algas na costa portuguesa, o uso destas na alimentação não tem grande tradição em Portugal, excepto para algumas comunidades costeiras nos Açores. Nestas comunidades, algas como Porphyra leucostica, conhecida como “erva-patinha” ou “erva do calhau”, e Nemalion helminthoides geralmente chamada de “esparguete da costa” são exemplos de algumas algas consumidas nesta região.

Erva-patinha (Porphyra leucostica
      É uma alga laminar, translúcida e mucilaginosa ao tacto, de contorno circular ondulado, podendo atingir comprimentos de 5 a 17 cm. A sua fixação ao substrato faz-se através de um pequeno disco situado no centro da lâmina, Ainda que prefira as zonas expostas, esta alga surge em todo o patamar mediolitoral. Quando os exemplares abundam, chegam a formar uma grande pele escura e brilhante sobre as grandes rochas, na zona costeira. Pela sua riqueza mineral e proteica, sabor intenso, aroma característico e textura suave, a “erva-patinha” é uma das algas mais apreciadas e a de mais elevado preço. Os espécimes do género Porphyra destacam-se pela sua grande riqueza em aminoácidos e de boa digestibilidade. É excepcionalmente rico em provitamina A, superando as hortaliças e, também, os mariscos e peixes. Os valores de vitamina B12 são também muito elevados nesta alga (29 g por cada 100 g de alga). A Porphyra tem uma baixa percentagem em gorduras e estas são de grande valor nutritivo pois, mais de 60% das mesmas, são ácidos gordos polinsaturados ómega 3 e ómega 6. É indicado para pessoas com falta de visão, especialmente visão noturna. Para além disso protege e nutre a pele e as mucosas. São plantas anuais e sazonais, que só ocorrem no final do Inverno e Primavera. São características do limite superior da zona das marés, onde podem formar mantos de pequena extensão. São abundantes em algumas ilhas (Flores, Faial, São Miguel) e ocasionais em outras, mas estão presentes em todo o arquipélago. São coletadas em algumas ilhas e utilizadas na preparação de alguns pratos, tais como sopas, tortas, pataniscas.

Figura 1 - "Erva-patinha".
Figura 2 - "Erva-patinha".
     
    Esparguete da costa (Nemalion helminthoides) 
    É uma alga vermelha, de cor castanho-avermelhada, constituída por uma pequena estrutura basal discóide. O seu talo cilíndrico faz lembrar esparguete, característica que originou o nome “espaguete da costa”. Ocasionalmente pode apresentar uma ramificação dicotómica e os ramos possuem entre 0,5 a 5 mm de espessura. Desconhecido nos países asiáticos, é cada vez mais valorizada na Europa, tanto nos restaurantes como nas padarias especializadas. Já há vários anos se fabricam empadas, pizas, massas, patês, pães, aperitivos fritos e latas de conserva, visto que o seu sabor faz lembrar alguns cefalópodes (chocos e sépias). É uma das algas com mais sucesso entre as espécies atlânticas e, ao mesmo tempo, uma das mais baratas, devido à sua grande biomassa e facilidade de recolha nas zonas costeiras. Pela sua excelente riqueza nutritiva, pela sua consistência carnosa e paladar suave, o “esparguete da costa” cresce no limite superior do mediolitoral em todo o arquipélago. É uma espécie anual e sazonal que ocorre na Primavera.